quinta-feira, dezembro 22, 2005

Instantes


olhar
por um caminho único
os estragos amenos
da sede dos rostos,
da fome dos corpos
olhar o instante
que atravessa o crepúsculo,
passo a passo

os olhos jazem
sem peso ou espaço,
sem qualquer razão
nem vestígio de tempo,
só nostalgia
a vaguear em ondas

a vista diz um nome
perpassa a palavra viva,
entre silêncios densos,
e acaba por amarar
onde o desejo acorda
leve e cúmplice
como um suspiro

olhar... único, o meu
um norte
um anseio terminal
abarcar o teu!


l.maltez

neste instante que as horas se aproximam a passos largos deixo-vos o meu desejo de um Feliz Natal a todos
“Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus ...”
...
Miguel Torga

sexta-feira, dezembro 16, 2005

por isso te quero muito...



cruzei-me, nas palavras
da outra voz que fala
de promessas intensas,
cruzei-me, nos passos
dividida entre impulsos
de transparentes desejos,

nas noites corroídas
inventei-te,
em silêncio sôfrega de emoções,
e envolvi-te
em abraços separados
entre o fulgor do teu olhar

imaginei-te do nada,
entre vozes cantantes
de um inspirado rigor,
imaginei-te dentro delas
entre melodias de Chopin
longe da minha sombra

adormeci
e
descansei o meu corpo no teu


l.maltez

sábado, dezembro 10, 2005

caminho e espero por ti...



caminho!

caminho
e sem destino,
ao longe nada se avista
que busco neste passo lento?
lento, desastrado, mas decidido
onde o silêncio é medonho

caminho
é longo o percurso,
faz frio e o vento é violento
tudo se torna indefinido, confuso
que busco exausta entre penumbras?
procuro um silêncio remexido

cansada de tanto andar,
chego ao fim, para te ver
escuto, olho e em vão te procuro
em silêncio, quero teus passos reconhecer.
vejo-te ou serás uma sombra,
uma sombra que sinto esvaecer

que importa a dor que sinto,
deixa-me assim
chorar, devagarzinho
sofrer a incerteza que pressinto

estou junto a ti, sem o sentires
guardo para mim o lamentar
de não te ver chegar, meu amor


l maltez

domingo, dezembro 04, 2005

dias de espera




faz de conta que o tempo voou. estrangulou o dia, rasgando
caminhos confusos da cidade invisível. depois enrosca-te na
penumbra, afasta as sombras gravadas misteriosamente e entre
insónias de horas perdidas, esquece-me pouco a pouco. desfaz as
memórias e vai secando as ideias, encharcadas do perfume

debruça o olhar no presente, abre a janela e engole as luzes das
noites. saboreia cada sussurro oculto, nas horas que ouves na
grande solidão. adormece na inquietude das paredes brancas,
cheias de falsos sonhos, enquanto fugirei de mim silenciosamente.
desce de novo os teus olhos, ao fascínio ardente da água teimosa,
do mar que nos fez sentir vivos, numa prolongada espera.

é então tempo de caminhar, voar no esquecimento das emoções,
partir sem som.

l.maltez

segunda-feira, novembro 28, 2005

um passo em palavras



dá um passo
vem a mim
faz(-te) por mim
o pleno
da palavra
doce e terna
dá-me
o broto
límpido e feliz
da tua boca
como sempre fazes
para me encantar.

...só mais um passo
vem a mim
Já não sei temer
o teu achego.

... outro passo,
vem!
... tão só
como te é dado ser.
Já não temo
já não ouço
o uivar
dos meus medos.

sei que amo
esse passo
que dás para mim.


l.maltez

terça-feira, novembro 22, 2005

desenho com palavras o arco íris

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escrevo, nas folhas gastas da memória
amarelecidas, pela secagem
de um tempo
cansado

escrevo, com tinta fresca
para te sentir presente,
quando o sol
despontar

escrevo, no meu próprio sono
como se fosse voragem
sonhando nos teus braços
apressada

escrevo, nas estrelas
os teus olhos brilhantes
os espaços que damos em insónias
perigosas

escrevo, na chama cortada
por uma voz escutada,
entre os nossos olhares
cúmplices

escrevo,
perco-me em ti
e não trago mapa


l.maltez

quarta-feira, novembro 16, 2005

abraços de amor e mar

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por cá
junto a ti,
mas em mim
onde as ondas quebram
encontro, liberdade
sem mácula,
sem vício
por cá,
ainda que não brilhe o sol,
reluz o azul

mar intenso
embalas os meus sonhos
numa melodia,
entranha-se-me
o teu cheiro a maresia
e eu ondeio a ideia
de ser no teu colo
que eu renasço

surge a noite
sufoca-me na garganta o grito,
queria ter-te junto de mim.
a solidão atravessa-me
quero ouvir-te, manso
sentir o teu afago
atenuar a dor da separação

por fim,
adormeço neste abraço


l.maltez

sábado, novembro 12, 2005

nenhum espelho te substitui

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abri o dia ao teu lado
entras nos meus sonhos
e espero por ti nas palavras
que se perdem
num verso que nasce

chegas, enches de brilho
os espelhos da manhã nua
que de olhos húmidos te viu partir

a porta, ficou aberta
nada te impede de transpor o limiar
uma névoa quase te empurra
como se fosses uma palavra perdida
num sítio qualquer

abri o caminho ao teu lado
e em sombras
transportas desejos
de secos gemidos
misturados nos silêncios

é este o tempo que temos
o tempo dos sentimentos
de cada um de nós


l.maltez

terça-feira, novembro 08, 2005

ouve-me neste instante ...

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para ti


as horas perseguem-me
sem palavras ou imagens,

entorpecido na memória
sustento o peso da tua luz

o corpo incendeia-se-me
dolorosamente envelhecido
entre os nossos desencontros

habito a alvorada de um sonho
em que a tua voz desponta
e irrompe por mim suavemente;

a vida recomeça amena e doce
a tua imagem abarca-me
preenche vazios, alastra
num desejo feito saudade

e
então quero-te a preto e branco


l.maltez

quinta-feira, novembro 03, 2005

espero um lugar entre o ser e a tua sombra

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uni palavras numa rede de pesca
caíram recordações
envoltas em alvéolos

diluíram-se sentimentos
que enegreceram a areia prateada da praia deserta

caíram murmúrios misturados
em íntimos gemidos

vozes frias, empastadas
agarram-se violentas à manhã cinza

na casa perdida
a solidão tornou-se branca
nas brechas das paredes mal caiadas

os gritos entram pelas frinchas
das janelas ressequidas

ondas gastas de tanto bater
ecoaram longínquas no centro da cidade

espiei o sol entre cortinas
e escutei o ruído do mar agitado

fiquei imóvel pensando
em voz alta na vontade de partir

olhei o horizonte silenciosa terrivelmente
fria!


l.maltez

sexta-feira, outubro 28, 2005

o sol entra pela janela e repousa na tua face

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a casa, parece vazia
escuto o som do vento

estavas lá
vazio como a casa,

senti tua sombra
a, sombra que sobrevoava
entre labirintos da minha alma

bastam tuas mãos
cobertas de vida, para encher a casa

procuro veloz com o olhar
o brilho dos sentidos,

o encher os braços
de sonos adiados,
exaustos, atados à imensidão da noite

misteriosa linguagem
entre um pedaço de mim
e os risos forçados, sem tempo

perco-me entre a casa
e o destino

caminho, caminho sem máscara
recomeço onde a realidade parou,
sem tempo, longe da memória

sinto-te em casa de novo
cobre-te o sorriso no rosto


l.maltez

sábado, outubro 22, 2005

o caminho certo

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horas perfeitas chegaram na manhã azul
um olhar sereno, debruçado na velha janela
bebeu o chilrear dos caminhos.

portas fecharam-se aos dias passados
consumidas por palavras,

range a madeira, impregnada de cheiro
da velhice, cheiro decadente
onde o ânimo foi anulado
pela absurda melancolia

desilusões, entraram sem permissão
grávidas de dor
o ar fresco fez-se sentir,

era hora, dizia o relógio de luz carminada
hora de existir sem nada explicar


a porta abre-se, como um cenário
e a cidade espera impaciente
onde a vida não arrefece,


os espelhos das incertezas que esperem.



l. maltez

segunda-feira, outubro 17, 2005

reflexos de palavras

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reflectir letras, no romper do dia
leves,
frias,

enquanto a cidade acorda,
os lábios serrados
palpitam,
e
rolam palavras avermelhadas

no café homens de noites mal dormidas
sonham, cegamente.
evocam a tristeza
enlouquecidos num olhar
infinito

na rua o cheiro podre,
deixado nos espaços
dos que correm, na turva manhã

o lago reflectido
surpreende o terror do dia

e depois desta cidade mais outra e outra
em gestos sempre iguais,
onde só a terra remexe e se mistura de dores
dos que andam de esquina em esquina

dolorosa poluição que nos atravessa
entre nódoas de palavras vivas


l.maltez

segunda-feira, outubro 10, 2005

a exausta bicicleta

enrolo devagar a tarde imatura
toco com dedos insensíveis

sons cruzados no crepúsculo
onde olhos bebem
saudades de despedidas

o vento empurra um homem
de bicicleta amarela, enferrujada

imagem inquieta
insaciável, manchada de resíduos

lentamente avança,
no solo orvalhado

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deixa riscos determinados
que descem profundos, exaustos

silenciosa, atravesso
com o olhar místico

é imensa a mancha
pintada pela vôo violento das aves

então
secretamente recordo o homem
da bicicleta estilhaçada


l.maltez

domingo, outubro 02, 2005

intenso espaço das horas que espreitam

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cantam as paisagens
no filtrar do dia,
entre olhares rápidos do espelho,
de alguém com hipótese de trabalho

a mota contorna rotundas sobre rotundas,
no mundo da cidade inteligente,

o homem num aspecto incorrupto
acelera, sem recordar os limites

tudo parece ser igual dentro de cada um
a luz, , a sombra, o dia
onde se bebem sentimentos

tudo parece ser ali
após um dia, onde a bebida e os cigarros
fizeram parte da noite mal dormida
e sentimentos esfregados um a um

as horas prolongam-se
no pensamento viajante
onde a ressaca ainda é dor

já nada resta,
nem a paixão que lhe fez tocar um rosto


l.maltez

sexta-feira, setembro 23, 2005

numa corrida assombrada havia um homem que corria de porta em porta

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no bater das portas



entrei no lado azul da noite
em silêncio pesado

tropecei na verde porta
com palavras embrionárias

flui da obscuridade
sem nome de gente

empurrei o verão
esquecida, na inocência do tempo
do lado de lá, disseminei aromas
na magia dos ventos desabridos

rostos sedentos,
aterrados,
suspirantes no sossego
duma noite, sem paisagem
transpirada de azul

voraz passa incandescente
a idade louca de um tempo


l.maltez

sábado, setembro 17, 2005

caminho devagar para não arrefecer a vida

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acordar assim,
vazia

sem ouvir um desejo,
inventar olhares

enganar o tempo
na preguiça do levantar
tentar ganhá-lo como aliado,
e
almejar a ausência da noite
mal dormida.

não chegar ao lugar,
mas também quem quer chegar,
ao sítio avassalador
de lembranças?

os dedos movem-se
entre um mim e a memória

parem!
grito-llhes como se ouvissem,
que ainda não é hora

podem desfilar os anos
abrir e fechar os olhos.,
como se estes quisessem saltar do rosto
que lhes pertence

a ferida não sara
e o meu nome não é a melancolia
do abismo.

toquei-me e terrivelmente só
caminhei nas cores prodigiosas


l,maltez

segunda-feira, setembro 05, 2005

sentado com os meus pensamentos na pedra cinzenta e gasta

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A sobrevivência


irónico, cínico, passou ao lado do esquecimento
à idade espera-a sentada

mergulha na eternidade
bloqueado pela cor intensa
e pelo calor que arde no corpo

gestos de espanto renascem
a cada expressão no remexer das trevas

um espaço todo para olhar
uma voz pausada que ecoa
na casa crispada onde o cheiro
álcool rutila as paredes da sala vazia

longínquo, o coração mergulha
invisível ao equilíbrio da liberdade
no pavor afasta a certeza

no corpo apenas o bailado
que o coloca de pé, com a dança do vento


l. maltez

quinta-feira, agosto 25, 2005

cheguei a ti vinda de longe e contigo mantive o espaço na memória da terra que nasci

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não sabes ver ou sentir
a quietude silente

sei quem és, onde pertences

sorrio-te,
em dias de luz difusa
ou só de nevoeiro
sorrio-te,
nas noites repetidas
sem astros

reparto contigo solidão
pedaços de alegria
momentos de tristeza
...paixão

congemino definições
talvez exactas
talvez adversas
talvez por seres
um amigo confidente
talvez pelo brilho
que busco na ausência

tens o mar por companhia,
acodes os aflitos
apontas caminhos
com ciência cativa
entre os teus segredos

e dizer-te mais?
que (já) vives
no meu sorriso.

e estarás comigo,
em lembranças
entre os muros
abissais da saudade

leito vazante
para uma linha obstinada
entre o tempo e o espaço


sobejas
farol de mim!
e fio de luz
... estendido
até ao amanhecer
... naufragado
entre ilusões
em dias sem sol

e assim mesmo
a ti não hei de dizer
"adeus"


l.maltez
(e retoques do vento)

quinta-feira, agosto 18, 2005

perdida vaguei numa inocência apodrecida

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amo com palavras
abraçada a uma chaga
como se o amor fosse demência
ou doença perversa

amo entre imagens
num grito dentro de mim,
louco, agudo
e envolvente

mato espaços meus
indiferente ao querer

fecho uma a uma
as persianas do dia
embalada na sedução do desejo

um querer ilusório
à opção de uma ternura
que acaba desfigurada
pela nitidez da formula já gasta

aceito o vazio da limpidez
e grito, grito sem saber esperar

l. maltez